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BALANÇO NAS NEBULOSAS

A música balança as nebulosas, brilhantes cabeleiras na noite, viajo na pele de varíola da lua. Não há bafos que não sejam de sonhos. Uma mariposa ronda a luz de casa. Há olhos em seu voo. A morte me espera, finjo que não a noto, ela fica nua para mim. Finjo que não a desejo. Um beijo. Moiras dividem um. Luas na nuca. Foto.

NAS ÁRVORES DE ONTEM

Quando cheguei em ti com um hino roubado a Dionísio, um raio roubado a Zeus, um perfume roubado a Vênus, estavas no enredo Com a ajuda das Musas criei para ti um tapete de poemas a que deitasses mansamente e sonhasses o que quisesses, esperei.... Conhecemo-nos de novo, Tu disseste, eu já fui tua, Tu disseste isso e eu teci com palavras nossa Igreja, pois, tinha fé no que me disseste por teu corpo e alma e além Olhei em teus olhos e me achei, eu estava lá, Lúcia, eu estava lá e o brilho de tuas retinas formaram lagos nos quais me atirei Cúmplices, em audácia, voamos nas aves de fogo da aurora, ao sabor dos ventos misteriosos do superior afeto, Sentamos nas árvores do amor até que de dentro brotassem nossas esperanças-flor para o Jardim do Tempo

STRESS DE PASSARINHO

Já lá vão meses do ano novo, Mais que os dez anos de Ulisses, Os fogos foram disparados Como um pensamento de amor  Das flechas de um mito Seis meses completos, Fogos de artifício, Olhávamos da praia Os céus que teciam nossos olhares Cores magníficas, Cogumelos de estrelas trançadas, Sete ondinhas todos pulavam Não perceberam o stress Dos pássaros que caíram Como aqueles rebeldes anjos Por entre o barulho dos fogos Pássaros tem stress Como todo mundo, E tem passarinhos com chupetas E choram diante de artifícios 4.000 pássaros morreram misteriosamente, Como a vontade de ficar de pé neste momento, Como este hambúrguer morre na minha boca, Depois de ser torturado na frigideira

COM TUDO QUE LEIO E SINTO

Tinha um caminhão chevrolet, um livro sobre o socialismo e vários folhetos de cordel, entre eles de João Acaba-Mundo, que lia até que acabasse o Mundo Claro do Dia. E minha mãe o amava. Todos o amávamos. Conhecíamos seu cheiro. Carregava cascalho e enxofre. Seu caminhão tossia. Um dia ele disse:  vou ser meu, já! Foi quando comprou o carro com tosse. Foi ficando oleoso, com graxa. Sempre embaixo do carro. Me pedia a chave de boca. Eu entregava, boca fechada. Me pedia o virabrequim. Era mui pesado. Ele sorria. - Vá ler um cordel! Eu ia. Li muitos cordéis. Que se enlaçaram no meu ser. Sobre Lampião, Corisco, etc. e tal. Embaralharam lá dentro Na armadura de Dom Quixote Feita de pensamento e sonho. Hoje, ele está dentro de mim Com tudo que li e leio e sinto. Vez em quando escuto uma tosse Bem fraquinha no beco da memória.

AMO-TE LUZ

Amo os teus olhos de fazer risco nas imagens. Os teus braços a entrançarem no teclado. Os teus óculos porque te roçam. Amo a poesia rimada que te faz brega. Amo o som que escutas, embora vibrem demasiado. Amo tua piedade para com as coisas. Para com as filhas, os amigos. Amo o ar em que respiras ritmando. Amo-te a crença nos castelos medievos em que te matei. Matei? Porque eu era gordo, barbudo, com dentadura de madeira. Só que era bom espadachim, o que foi ruim para teu amante. Me disseste isso. Ainda me lembrarei. Hoje estamos regenerad….é melhor esperar mais um pouco? Amo observar tua crítica aos poetas que se elogiam na rede, Deitados na rede do sentido con/temp/errôneo da contemporaneidade Que balança para os escolhidos da época. Esta época lhes cabe. Os longamente amados dos editoriais. Dom Quixote se aproxima. O Moinho é antigo. Estou pendurado em suas hélices. Tu giras comigo.

ESCREVO E SAEM

Escrevo e saem as montanhas a voar. Escrevo e começo a andar no teto. Escrevo e começo a correr pelas paredes esbatendo os vértices. Não preciso que me digam que sou poesia sangrando. Escorro como escrevo. Escrevo sem pedir socorro. Uma palavra se pareceu com outra? Deixa correr. Rimo demais? Deixa. É construção espelhada. Não preciso que me falem das ruas. Sou as ruas. Não as que conheço. Mas as que desconheces. Estou no berço constantemente. E sou o vento de seu balançar-me.

SOB TUA PALAVR'ÁRVORE

Cada vez que penso, a poesia se enfeita. Penso com os olhos fechados, abertos para dentro. E cada vez que me fecho o mergulho é mais fundo. Pretendo mergulhar até o outro lado de tudo. Talvez assim eu me ache nada pleno de vazios cheios. E possa quiçá dançar um tango com a poesia. Um tango com os globos oculares ausentes. Que ao fim ela, a poesia, se canse de mim. E me empurre nos espinhos que plantei nos fatos. E me mande lavar louças no Aquer'Ontem. E cuspa em mim seu cuspe doce como algodão dócil. Depois, que me levantem as mãos do sonho. Drogado de realidade. Sem reputação. Assim, em desequilíbrio, o sonho macule. Me faça prender entre grades sistemáticas. Que me renegue delírios. Que me faça condenar aprisionado nos dias. E se os dias forem largos, que eu seja preso nas horas esquecidas, Ou nos minutos, ou nos segundos sem lembrança. Isso é porque estou pensando. Pensando. Pensando. Pensando. Pensando. Apenso para dentro. Que ao fim, me canse e descanse ...