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ORFEU EURÍDICE E O CRACK

Orfeu queria tentar e, por amor (incluso aí tesão),
foi até a boca de “crack” ver Eurídice Conceição.
Tinha uma intenção: tirá-la de lá. E eis que entrou.
Negou, mas, contra a própria vontade, viciou,
perseverou e eis que um dia avistou a bela.
Porém, cada vez mais longe a Ceição.
Ele ia, ela fugia. Até que a décima mulher
do dono da boca 90, requenguela,
Perzéfa Transsex, operada, gostou de Orfeu
e intercedeu pelos pombinhos. Bocão foi bom.
Teve galhardia. Disse que Orfeu podia
levá-la, mas tinha de pagar as pedras que devia.
Orfeu deu-lhe a lira, seu violão ferrado,
de quinta. Papo furado, disse Bocão. Tem cor de viado.
Não vale um pinto. Está até encupinzado. Falou Orfeu:
Mas a meu dindo da Grécia pertenceu. Bocão falou:
Tua mulher é minha. Eu uso dela té tê a grana.
Mas, Bocão, ela me ama, chorou Orfeu.
Provô da pedra, só ama o crack. Vou comê ela!
Perzéfa perto cortava um fruto. Gritou: seu puto!
Furou Bocão como peneira. Seu sangue em poça
desceu o morro. Não se brinca c’uma dona
enciumada. Lembra Medéia?  Orfeu e amada
correram mundo que nem jaguar. Perzéfa gritou:
foi os homem, meus mano, que tiraro os dente
d'alma de Bocão!  Essa é nossa sina, disse Zuza,
nosso dia é guerra, nossa noite é chacina!
Eu falo em nome de todos: - Perzéfis,
Qué sê a dona dessa humilde boca...Patroa?
- E por que não, zuzinha? Eu tô mermo à-toa.

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.