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MAIS FÉ

O que posso desdizer,
dizer do amor?
Da dor? E daquele 
ser-não-ser ali
que pensa
ser de merda
sob cobertas,
de cabelos sujos
pedindo moedas
pra comprar cigarro
pra encher de birita
a cara
só birita
sem mulher
pra não dividir sequer.

E daquele outro
que é bom pai
bom filho
bom esposo.
Trocou de crença
e hoje é católico
e ontem foi espírita
e anteontem budista
e atrás de anteontem
foi ator pornô
e chupava
na esquina
meninas maduras
e comia vereadores perdidos
e ex-prefeitos cassados,
segundo um jornal fodido
e fadado ao lixo.
Não posso dizer do amor.
Nem da dor.
Nem daquele
que beija umoutro.
Ou daquela
que beija umoutra.
Nem daquele
que beija um morto
só por rima.
Nem daqueles neutros
posso dizer um tanto.
Mas digo de teu rosto
de deusa reles
que um bem danado
pros dedos fazem
e que me limpam
quando te sujo
branca página
me trazem
mais fé.

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