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TALVEZ SEJA O PREPARO PARA A POESIA

Talvez olhar uma imagem bonita
com violetas e azuis a sair da noite
desafiando as constelações.

Ouvir uma canção com coração
(ou não), mesmo que "in memoriam".
Talvez olhar um cão andar com três patas.
Talvez olhar pela televisão
uma menina presa entre escórias,
sorrindo na esperança que bombeiros
a tirem dali com vida aos ombros.
Talvez olhar uma mulher subir por uma corda
quando todas as chances eram contra ela,

uma mulher de 48 ou 53 anos por aí,
chamada Ilair ou algum nome assim,
numa enchente impiedosamente natural,
ou vice-versa.
Talvez olhar uma rosa, mesmo de soslaio.
Olhar um rosto, mesmo de passagem.
Um gesto no ar, mesmo rápido.
Um casal se beijando num banco quebrado.
O poema "O sul" de Jorge Luis Borges.
Talvez isso tudo prepare o olhar
para o poema que salvará
o dia findo do poeta.

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

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