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SURDA VELHA




A velha surda e calminha como aquelas mulheres não da vida sim da morte pois a vida lhes queimou com iniciais puritanas pediu ajuda para passar por sobre o espelho que só ela via e que no chão lhe repetia

A velha surda e calminha como se depois de tomar sopinha ao passar o espelho
pediu ajuda para enxergar os olhos de abismo
que só ela via lhe zombando as orelhinhas finas
tão finas como um cocozinho de formiga se acaso

A velha surda pediu ajuda e ninguém deu
pois os alguéns que ela via temiam o olhar do abismo e só haveriam de nascer
em outro
no meio das tintas do caminho como uma pedra escrita por Spinoza

Muitos perguntarão se se deve ajudar velhas surdas a irem ao bom teatro
e a resposta já não pode ser dada quando se nota o seu sentar no ultimo banco do teatro
desagradecendo a Algum Deus Fabricante de Aparelhos para Surdez Caros o estar ali para assim ouvir com precisão o que o ator/atriz dirá em notas máximas

Para ouvir com precisão...
Então, quando ela abrir as orelhas sem abano gritar bem....

Estar surdo, escreve aí ....
Mas antes de gritar guarda o cotonete de ponta amarelada orelha-de-sol para a surda depois do espetáculo

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

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PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.