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POR UM UNIVERSO DANÇANTE

Aguardo que venha a luz 
que tudo ressignifique
e um troll dançante
faça do fim do mundo
um desfile
com milhões de carros alegóricos

aguardo que o peito fique manso
e que fique bravo na mansuetude
como um cavalo vivendo
contra o vento

quero ver os quatro cavaleiros
com programas na televisão
já que os comerciais
tripudiam sobre a fome
e ri da nossa peste contagiosa
de consumo
que se alegra com a manipulação
dos fatos e gestos e mortes

aguardo que Sísifo seja apenas um mito
na porta da rocha
e não uma visão que assusta a cada pesadelo

aguardo que as portas se abram
que as janelas sejam escancaradas
que eu me estilhace nas faces da música
do começo do universo

e que o mundo seja uma pauta musical
sendo iluminado por cada nota
aguardo que me sorteiem
e digam ganhaste o grande azar

aguardo que o correio
me traga uma excelente notícia
cheia de notícias em negativo
com desespero de não ser mais triste

aguardo as fúrias transformadas
em abobadas abóbadas
caiadas em mansuetude

aguardo que todas as mulheres
façam os homens felizes
e que todos os homens
façam as mulheres felizes
crianças adultos e velhos e mortos

aguardo a oportunidade
de tocar um pandeiro
e ter o êxtase de uma bateria
refulgindo em delírio

aguardo dionísio
para um último trago de contentamento
aguardo que meu país seja utópico
que tenha pontes para o além-da-fome
bem maiores que as constelações
que tenha pontes para o além-do-amor
para o além-da-dor

aguardo que o riso se dê sem esforço
numa inocência imortal de louça
um mosteiro onde possa por
roupas e pensamentos que desusei

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.