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ADERNANDO PELOS OLHOS

Esquecer que fui oco mesmo denso o espaço
Esquecer tudo ficando na beira da margem
Esquecer que ser ontem é hoje estar sentado a ver
Esquecer o impossível da fruta não mordida de sabor possível
Esquecer na capa o título do abraço desejado
Esquecer as palmas após o palco chovendo
Esquecer o desejo não retornado do prefácio inusual
Repaginar o caminho do rei destronado
Esquecer que não redigi indesculpáveis parágrafos
Esquecer que não conclui o traço da idéia inicial disto
Os pés recolhidos sob as rodas do dia
Os degraus do irrefreável ritual
Pedir desculpas do abstrato esquecer o que não vi
Refazer renascer no intervalo entre lá e aqui
Pular a janela escancarada dentro
Salto ornamental no evanescente
Pular respondendo ao vazio
Do amor ido sem densidade
Esquecer que amei uma estátua num conto
Com o casco-coração adernando pelos olhos
Esquecer que fui oco mesmo tenso o esboço

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.