Pular para o conteúdo principal

TRAVESSIA NOVE

(Urbana Paisagem)

Corta a cidade, a atravessa,
a grande avenida, como um pensamento
atravessado por uma malícia,
a avenida lembrando um fio de carícia
no rosto da cidade, o sexo a penetrar
a cidade, a grande avenida nove,
serpente de asfalto e fome,
fome de pneus, de calçados
de corredores, calçados de madames,
moças, pés descalços, pequenos ratos,
cachorros, acidentes, paradas, desfiles,
a grande avenida nove,
com história de escravos atrás de si,
corta a cidade a nove como o rio de João,
o talhe de Maria na carne do tempo,
como o sonho de Martins furando o real,
como a moto no corredor, atalho
à minha pequena casa-cidade,
onde pérolas nascem e renascem
no coração da concha-lar

O sangue da cidade nessa grande avenida
empoeirada e melada de ambições, ideais
concretos, ou de concreto, asfalto, fezes de cachorro,
uma grande cauda de um extremo a outro,
uma grande cauda de vestido azul,
quantos exploradores ali perpetraram
assaltos legais e ilegais, jogos de
avenida-cobra-tentadora-arrebatadora,
onde as luzes bailam na noite,
seu cheiro do nada-tudo humano,
circunferências, engenhosos relógios
no pulso de suas artérias,
mulheres e homens, mendigos astronautas,
borrifam de humanidade os sapatos
dos anjos transformados,
os dedões dos jovens escuros
de tanto beber as noites,
febris ostras de caos

Mas dizem que há esperança

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.