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A JANELA

A janela da verdade muda sempre, a parede gira-gira de tonteira, não fica num só lugar a verdadeira janela que uma posição desmente. A janela da verdade muda a toda hora de lugar, e nos esquece; a gente quer olhá-la, ela nos mente, se a gente não a olha, enlouquece. Por pensar nessa janela que se altera, por nem sequer prever os seus sinais, me veio a palavra de Descartes quando pensou e não parou jamais.

COMO EU NÃO TENHO VERDADE

Como desprezo a fortuna, minha pobreza é que cala. Pois por mais que me aproprie muito mais riqueza instala no que faço ou redefino, tirando ouro das falas. Já acreditei num sonho havido em noite gloriosa, fui escravo, já fui dono, amei a tarde gostosa, amei as manhãs com sono, acordado em minha glosa. Como não tenho fingidas idéias mas as consumo, quem me acredita falseia, quem me ouve, se confunde, quem imita o que desfaço não há cães que o circunde. Já acreditei num sonho...

EXILIO INTERNO

Disse Oscar que se alguém concordar contigo, tu estás no foco errado. Ele é que disse. Não eu. Mas acho. Quieto estou deste lado. Se tu concordas comigo, tem que ser bem concordado, pois sou de mim discordante; durmo de frente, de lado, e quando acordo é distante de onde moro, aproximado. Sou inquieto, confesso, pois tudo já está criado, há estilo colorido, estilo branco, estriado, e não me encaixo tão fácil, tiques eu tenho e não tenho, vidas eu vivo e não vivo, vejo em concreto e abstrato, e se sou caro por dentro por fora sou bem barato. Nasci no pós-fragmento, sendo inteiro-estilhaçado. Meu racional sentimento é de modo emocionado.

EM SUARÃO O VELHO CÃO III

Como o velho cão tá exibido agora! Pra todos late: - Olha a minha pedra! Que lindau! Que redondau! Que branquinhau! (Dizem que os cães negros também preferem as branquelinhas). Pituxa late também, mas com certo ciúme de Max.   Max é agora um cão Sísifo. Cão de Marta e Zé Roberto, condenado a rolar a pedra enquanto viver. Porém, não vê como castigo.   Aceita o destino por sina dos olhos azuis. E sua ternura é um luar sob pelos negros. Por vezes, cansa, pois, é um cão ancião, um sábio cão ancião, com doze anos ou mais,  dizem seus carrapatos ancestrais. E quando cansa gira, como uma máquina pesada, e senta bem devagar,  pois seus ossos doem como amor de mar azul. Pituxa o segue, tremendo todas as patas....

EM SUARÃO O VELHO CÃO II

Contam que Max, um cachorro velho,   queria um pacto com a Noite: ele uivaria e ela lhe presentaria com olhos azuis. O cão tinha tara por olhos azuis. Talvez de tanto ver, sentir, o   mar, ou latir pras estrelas.    A Noite disse: - Não! Basta moveres a pedra! Mas....- Não tem mais! Basta isso! O pacto foi feito com sangue de cão. Então, quando, de noitinha, recebe os olhos de céu, late roucamente,  e move ao centro a pedra  que a Noite sempre esconde dos lados. Pedra que virou cúmplice primeiro, depois, amor,   trocando palavras com ele no morto idioma calhau, língua de pedra,   língua de antes das primeiras mães. Em pouco tempo aprendeu  a esfarelar .

EM SUARÃO O VELHO CÃO I

Muitas folhas secas sob as ondas, espinhos, cacos de dor do mar aberto, e um barulho marinho do começo das eras. O cão velho de orelhas cruzadas  late com os fogos e seus olhos doces sorriem do dever cumprido. A cadela idosa se esconde, pequenina e   rápida, embora a artrite. Fora a primeira a chegar na casa.   Ela seria Xuxa, não se chamasse Pituxa...   

MAGRELINHA

Naquele banco de praça, a magrelinha era uma evidência fóssil. Ela era um dinossauro naquele banco de praça. Entre tantos gêneros e espécies, ela tava lá, insistindo em dar sorrisinhos aos transeuntes. Sua roupa assemelhava escamas. Com menos armadura óssea que o desejável. E angústia. Ficara submersa em poeira muito tempo. Foi quando adquiriu estruturas como chifres ou cristas nos ossos. Está ali, naquele banco, em gesto fixo, corpo teso, de flores seu sorrisinho, a se espalhar no entorno.