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LAVADEIRA DA MINHA INFÂNCIA EM REPRISE

Lava lava lavadeira da minha infância em reprise Lava lava lavadeira os cernes das minhas crises Lava lava lavadeira o fundo dos meus aclives Lava lava lavadeira o ser-sem que é corvo/cisne De tanto peso nas curvas dorme por um triz e tisne o triste Lava lava lavadeira meus pensamentos in/firmes Ao te ver curvando o sonho e quadris ao rés do rio Lavo lavo lavadeira minha virtude no crime De tontos desregramentos Lava lava lavadeira meu resto em tuas bacias Teus meios lava lava lavadeira nos teus céus Os meus infernos Lava lava lavadeira meus olhos minhas olheiras Pois se por fora eu rio por dentro solto o berreiro Por teu cheiro em peixe e água impossíveis

TEMPO A VALER

Há horas que sangram Em relógios-cais, Vemos nossa alma Padecer em ais. Relógios são frágeis No tempo atual, E nos desesperam Sem tique ritual; O tempo a correr Vai manco, apressado. E cai a valer Doendo do lado.

A A(DOR)ME(SER) Mores de I(a)raque ou (Af!)ganistão,

Não vou Onde há cheiro forte de costelas para os corvos Mores de I(a)raque ou (Af!)ganistão, Lá onde guerras vêm umas das outras, Em locais onde se ajuntam bandejas podres Com velho vinho e Santa Ceia para o ódio, Donde embebedam-se homens à custa De mulheres enterradas sem clítoris, Amolar-me em limo De alvejadas folhas, Talvez bem te engane minha poética ambígua, Mas não a mim, Aqui crucificado bebo de vida e morte Letras que juntei amistosamente no copo, Não vou lá

RAIZ

Vejo u'a mulher, seus olhos doem de serem belos, caminho então na direção dos seus cabelos crespos, ao rés da alma medos e mágoas, piso bem leve Não, na verdade, são cem em uma e todas vertem mil universos num só pescoço, traços de afetos que bem recebem ou receberam lábios com sede Abraço todas num corpo uno pensando em lagos que me afoguem bem afogado sobre o pescoço que beijo e sangro como uma fera de outra idade no tempo morta Vejo a mulher, sua pele em nuvem, clamando toques, retoques e sons chuvosos, toco em seus seios tão generosos por sob as vestes, não, na verdade, são cem em uma e todas despem suas auréolas Vejo suas pernas, gregas colunas, calores rubros mesmo na chuva, pego suas pernas e roço nelas como em cem outras, firmo suas costas, durmo em seu seio como em cem seios, teço-me os sonhos desde a raiz

VISTE, ESPELHO

Se tudo o que vejo parte daqui, como acreditar nas tuas falas, se o que causa escuros é de mim? Teu é o coração que não me atinge. Teu é o desprezo, ojeriza, asco. Tu me lanças o enigma da esfinge? Rastilhos de pus na pálpebra. Se tudo enxergo a partir de mim, por mais que sorrias, não me alegro, pois ao morrer, o tudo se acabará. Viste, espelho? Me escuta: o que em mim cresce jura inocência do crime de ego/refletir-te.

OS ANJOS PEGAM SUAS TROUXAS

Os anjos pegam suas trouxas. Não têm mais esperança. Estão em fuga. Não são mais os mesmos. Aquele jeito puro deles não existe mais. Aquele sorriso de cada anjo ganhou febre. Antes invejavam os homens. Agora invejam o Nada. Se ganhassem o Nada, Mergulhariam sem pensar em nada. O Tudo lhes cansou. Pegam suas trouxas e vão aos piquetes. Quando assaltados de pequena esperança, Pedem jornada eterna menor. Melaram de bosta as asas. E apontam o dedo médio pros homens Que os vêem quando sentam no meio-fio.