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HÁ GENTE QUE SOFRE II

Há gente que sofre por falta de ego/algo em si-mesmo-no-outro. Há gente que sofre excesso de dor de poesia. Há gente que sofre de fome e de sede de briga com a palavra. Há gente que sofre por morrer o carro sem estrada no ar. Há gente que sofre por ter prestações todas pagas com a pele. Há gente que sofre por ser imprestável o bolo que fez pela internet. Há gente que sofre por ser magro e alto como a peste. Há gente que sofre por ser gordo e baixo como um sub. Há gente que sofre por envelhecer jovem, sem púbis. Há gente que sofre por não aumentar a folha de pagamento trabalhando. Há gente que sofre por morar no gelo do freezer. Há gente que sofre por rachar os pés com o chão afiado. Há gente que sofre por achar que sabe a data do começo. Há gente que sofre por saber que é tarde cedo. Há gente que sofre por saber-se morto ainda vivo-ontem. Tem gente que sofre por querer justiça para sua cerca. Tem gente que sofre por querer desviar porões para sótãos. Tem gente que ...

CARNE DE MINHA ALMA, OUVI-ME

Carne da Minha Alma, ouvi-me!  Vós que suais todos os meus cansaços! Vós que sentis todos os meus tremores! Ouvi-me! Vós que estais fadada a sentir e a ressentir e a dessentir as peles do mundo! Vós que passais largo tempo cheirando todo o pó das incertezas! Vós que roçais paredes, muros de linguagens, ocultas e claras! Vós que sois o amparo de meu logos/ossos! Carne da Minha Alma, ouvi-me! Vós, que encho de cuidados contra acnes de mágoas, feridas de anseios,  vitiligos de ódio, manchas, gorduras de sadismos cruéis, beliscões extremos de invejas, fedores humanos! Vós que me encheis de esperanças tolas de que um dia sejais eternamente limpa e sem fedores!  Carne da Minha Alma, ouvi-me! Vós que gemeis de anseios, de dores, de sede, de fome, oriundas da dúvida nem sempre livre, nem sempre pura, nem sempre impura, de que existo! Vós que vos encheis de infinitos ante o toque da Poesia do Universo! Vós que tendes vontade de Viver depois do ...

NÃO PERCA TUA ALDEIA DE VISTA (PARA LEONARDO SÓ)

Estás voltando para tua aldeia, depois de tanta luz e tanta sombra. Mais sombra e luz ainda virá. Para isso fomos feitos: para os defeitos das virtudes e para as virtudes dos defeitos. Como Ulisses retornou à Ítaca, depois de enfrentar os monstros em si e fora, de arrostar o deus invejoso, os feitiços do amor. Estás voltando à aldeia. Lá o espera o quê? Mais esperança? O primeiro amor? Últimos amores? Não pecaste contra o céu. Não és indigno tanto assim. És humano como a glória de o ser. Os porcos são grandes professores. Um aperto no coração? Gastaste sem temperança. Beijaste os lábios das egípcias que se davam nos becos, comeste o manjar das hetairas modernas de São Paulo, empurraste a vida nas paredes, na ânsia de perpetuar-lhe o prazer. Vestiste o melhor da Fenícia. Calçaste sandálias de legítimo couro. Mas tudo é tão efêmero. Mas tudo é tão efêmero. Sobreveio uma grande fome. Teu coração teve fome de amor e estás voltando para tua aldeia.

MEU OUTONO

Tenho a alma exangue Sob bombas lerdas. O poeta joga A face sobre. O anjo quase-morto. Sob a valeta violenta. Sempre quase-deitado. À terra rente, de-lado. Sempre no inusitado Signo/lápide/barro. O anjo enrola triângulos. Sob eles pedaços de deus. Limpa o barro do entorno. Sob a lama em tédio. O anjo para almas bêbadas, Só, de voo em voo. Ávido. Violentando noites de asas em fogo. Minha existência :   chãos de meu outono. Sinos/lascas/carro abarrotam sentidos.

TIRAS DE ESPELHO

Espelhos esparramam Tempo sem reprise: Um corpo tão falho Vendo outro em crise. Botox esboçam Em tiras de espelho Vaidade e suas poças De face em vermelho. Dar vidas às mãos, Dar-se ao vivo mar, Gerar mais demãos De espelho a fartar. Dispor a vida toda No poema, vão reflexo, Apesar dos vasos Quebrados, convexos.

POR VEZES CHEGAM A ÍTACA ou QUEIMAMOS RÁPIDO

Homens geram alergias míticas quando não sabem a pele do tempo. Seletos porcos bípedes abrem os olhos ao Ser-Net. Híbridos remoinhos jogam sorrindo a inocência de barcos no fundo da tarde. Cilas discursa às ondas, diz que é bom pra voz : - Homens são prisões para mulheres, às vezes a vida toda. Elas abrem-se neles com fé nos cabelos. Espalham o útero delas sobre a mesa, algumas os comem quando morrem. Eles sem a chave de si Às vezes cedem a sereias. Ás vezes, chegam a Ítaca. Muito diferem do espelho. Necessário o desespero para chegar à aldeia interna com pureza. Meus amigos queimam rápido. Ítaca sempre está em fúria. Oculta verdades insólitas. Na verdade, Penélope não aguentou esperar. Está na Estação, comendo cocô de luar. Todos queimamos rápido a pele do tempo. Dez anos passam céleres.