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ADERNANDO PELOS OLHOS

Esquecer que fui oco mesmo denso o espaço Esquecer tudo ficando na beira da margem Esquecer que ser ontem é hoje estar sentado a ver Esquecer o impossível da fruta não mordida de sabor possível Esquecer na capa o título do abraço desejado Esquecer as palmas após o palco chovendo Esquecer o desejo não retornado do prefácio inusual Repaginar o caminho do rei destronado Esquecer que não redigi indesculpáveis parágrafos Esquecer que não conclui o traço da idéia inicial disto Os pés recolhidos sob as rodas do dia Os degraus do irrefreável ritual Pedir desculpas do abstrato esquecer o que não vi Refazer renascer no intervalo entre lá e aqui Pular a janela escancarada dentro Salto ornamental no evanescente Pular respondendo ao vazio Do amor ido sem densidade Esquecer que amei uma estátua num conto Com o casco-coração adernando pelos olhos Esquecer que fui oco mesmo tenso o esboço

ACORDAR, ACORDAR

Tenho de acordar segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho um sábado e domingo para atuar com o coração desfiado. Em cima de alguma cadeira ou sofá lendo a parede. Seja parede-parede ou parede-rosto. Lerei somente paredes de alma que tragam riso nas dores da carne. O eu pensa em sua cidade sem e com ambições. O eu não tem uma revista onde possa degustar o ego e envaidecer-se de ter uma bela opinião inquietante. Nem leitores enxergando-o como um belo exemplar. Mas o eu sabe que sua cidade precisa para todos os cidadãos de segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados, domingos, com consciência suficiente para despertar o olhar pro barro e pedra do corpo.

SOU UM DE HAIR

Sou eu um dos que sonharam E subiu no banquete sobre a mesa Sou eu um caco de Diabo com Deus Sou eu quem envelhece os próprios átomos Sou eu quem se refaz de mortos cascalhos Sou eu quem faz sóis compactos no lápis Sou a órbita do papel escorrendo sangue Sou quem permanece e subjuga a sombra Sou quem se veste de noites em frases Sou quem assalta signos Quem se elabora as asas do fim Quem cospe na dor atávica Sou um eu fugindo dum mim

TODANJO CÃODENTRO TEM

Um cão é mais útil que um anjo? Dei contas a um que me impuseram. Deslizei no canto fácil do verso. Caí aqui. Contratei um cão. De longe. Claro que ele quer minha alma. Mas não a dou.  Lhe manjo. A daria a Goethe que o criou. Velho mar(m)anjo cãotante, Todanjo  Cãodentro tem? Goethe era Fausto  Quando Werther? Não, era um cão sábio O homem. Criou canis de verbo infernais. Um cão é tão útil quanto outro cão? Um anjo de vez em quando late. O menino de onze anos Só queria amor.

GEOLOGIA CARNÍVORA

Aquela rocha desde sempre Fascinada pelo filho Do vento e da chuva Um dia lhe falou, Enquanto ele a desgastava: - Dos teus olhos/intempéries Em minha geologia de carne Cresceu alma de musgos. Da tua libido/belezura Em meu degredo Cresceram Escorregadias estrelas s em mar. Se a lâmina de teu ser Me tremeu o precipício Em terre(amor)oto, A erosão que me fazes É causada pelo quê?

SOB T.M.

Éramos assim. Não tão. Um talento para inimigos. Um talento incomum. A Poesia Quando aparecia Era nossa faca E nos sangrávamos, Uivando, Sob o tesão das musas.