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DE MIM E DOS QUE AMO

Tento escutar o que dizes de mim e dos que amo, para assim poder avaliar o meu egoísmo atroz de considerá-los mais que aos outros e poder te agradecer e dizer que puxaram a mim. Ou escutar o que talvez tu nunca venhas a dizer, para assim passar desdém no chão, para assim poder lavar a ira secular, para assim esfregar os cantos ansiosos, para assim fazer o café com duas broncas mascavas, para assim poder mudar o guarda-roupa de lugar, o sofá do teto para o subterrâneo, o criado-mudo na parede sul, a montanha defronte do sonho esquecido em meu sacrifício para o sol por trás da biblioteca que um dia terei, para assim poder escrever o roteiro adaptando o berço, para assim poder representar a vida do rinoceronte, para poder ir ao vaso por um seio da loura do banheiro, contratada para contra-regra do fantasma da ópera que é a vida daquele vulto que se veste de mim e tenta gritar a cada acordar pra ti. Tento escutar o que talvez já tenhas dito de mim e dos que amo e...

VISGO NA PAREDE TORTA

Um mendigo sonha... Que sonho ele rala? Como poeta anda... Que andar ele fala? Um passo de Deus? Lembra aquele rastro Onde se perdeu, Feito um caramujo Na gosma do breu. Um mendigo enverga Sob peso e alisa O que ele carrega De poesia e abrigo: O cão, a coberta Sobre o chão cuspido Com fedor de merda, E curtido a urina Um poema velho. Há pus na virilha De amarga memória Que ele coça e estica Sua vida é corte Que ele curte a visgo Na parede torta Que sustenta o dia E se chama Morte A égua que encilha.

SOU OTIMISTA

Sou otimista. Em mim, uma tragédia tem sóis. Sou ótimo de se ter como jogador de palavras. Sou como o despedaçar da porta pela qual entrei. Posso ser um ótimo pinóquio sem mentiras . Posso ser bom pra quem não seja. Um bom filho da puta, sem putarias, bem entendido. Sou para a Beleza o que ela quiser de mim. Sou como a porta pela qual entrei. Empurrei-a com tanta força, que me quebrei. Mas posso reconstruir-me como um bom cara de pau.

COLHEITA DO SER

O medo sem garantias, O fim do mundo em malogro, O eterno jeito de ceia, O amor, seu peito em fogo, Uma reta fugidia, Uma mole geometria, Um bem e um pouco de mal, O amor e sua teia, Vitamina e sonrisal, Receio e bolo de aveia, Veia sangrando macia, O medo em funda bacia Controlado vinho e sal, Descontrolada de frente A paixão sem paz sem chão, Livre e forçosamente, O medo vindo por trás, Em sua fome falaz De dar formas à semente De inverdades colossais Onde o ser colhe e recolhe Sem entender-se jamais

ADERNANDO PELOS OLHOS

Esquecer que fui oco mesmo denso o espaço Esquecer tudo ficando na beira da margem Esquecer que ser ontem é hoje estar sentado a ver Esquecer o impossível da fruta não mordida de sabor possível Esquecer na capa o título do abraço desejado Esquecer as palmas após o palco chovendo Esquecer o desejo não retornado do prefácio inusual Repaginar o caminho do rei destronado Esquecer que não redigi indesculpáveis parágrafos Esquecer que não conclui o traço da idéia inicial disto Os pés recolhidos sob as rodas do dia Os degraus do irrefreável ritual Pedir desculpas do abstrato esquecer o que não vi Refazer renascer no intervalo entre lá e aqui Pular a janela escancarada dentro Salto ornamental no evanescente Pular respondendo ao vazio Do amor ido sem densidade Esquecer que amei uma estátua num conto Com o casco-coração adernando pelos olhos Esquecer que fui oco mesmo tenso o esboço

ACORDAR, ACORDAR

Tenho de acordar segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho um sábado e domingo para atuar com o coração desfiado. Em cima de alguma cadeira ou sofá lendo a parede. Seja parede-parede ou parede-rosto. Lerei somente paredes de alma que tragam riso nas dores da carne. O eu pensa em sua cidade sem e com ambições. O eu não tem uma revista onde possa degustar o ego e envaidecer-se de ter uma bela opinião inquietante. Nem leitores enxergando-o como um belo exemplar. Mas o eu sabe que sua cidade precisa para todos os cidadãos de segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados, domingos, com consciência suficiente para despertar o olhar pro barro e pedra do corpo.

SOU UM DE HAIR

Sou eu um dos que sonharam E subiu no banquete sobre a mesa Sou eu um caco de Diabo com Deus Sou eu quem envelhece os próprios átomos Sou eu quem se refaz de mortos cascalhos Sou eu quem faz sóis compactos no lápis Sou a órbita do papel escorrendo sangue Sou quem permanece e subjuga a sombra Sou quem se veste de noites em frases Sou quem assalta signos Quem se elabora as asas do fim Quem cospe na dor atávica Sou um eu fugindo dum mim