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Inexistência do Unicórnio

Como esquecer teu cérebro maculado os pensamentos dos teus ossos teus olhos de açafrão falso teu pescoço de cebolinha marinha as fezes de tuas frases exibidas as figuras de teus dedos ridentes os hieróglifos de tua árvore cifrada Como esquecer o buraco de teus avatares as algas de teus mares arcaicos teu andar de medusa decapitada tua fome e inocência infame  tuas terras abandonadas teus carros sem freio tuas casas afogadas tuas respirações gélidas teus cemitérios com sobrancelhas teus odores de pântanos Quero esquecer teus corvos o amante do qual devoraste o fígado as pólvoras de teus braços fracos as garras de teu passado sem estômago teus cabelos mutantes o comércio de teu sexo estourado  Quero esquecer teus espelhos navegando neles com meu sangue a que sintas teu envelhecimento precoce de górgona pretérita Quero esquecer as matas de tuas junções as tuas abluções no rio da vaidade os teus joelhos quebradiço...

SEQUER EXISTE

Quem há de doar Ao ser, quem arde Há de imensos fachos dar À sua ferocidade? Sem dó do ser ferido, Imerso em furna antiga! Sem dó do ser movente E seu barco á deriva! Quem há de Apagar-me o mito Para libertar-me disto Que em si sequer existe?

FODES LEDA

Em halo de anjo, Flora Enamora-se de Fauna, Tangendo cérebros. Disfarçando-te num cisne, Pegas o poema sem mérito E chamas ela, mofino. Leda, fluindo, vem, tão jovem, Nadando ao teu ser, de cismas Em fervura, onde chovem Poéticas na pica. E fodes Leda, embora mudem Várias rugas teu semblante E à cintura pneus chutem O escroto que dessangra.

LENDO CUBATÂO

Cubatão, atenta E deixa eu ler-te o imberbe rosto… Leio pelas linhas de tua pele Lutas desde o salso dos sambaquis Sob odores de jacatirões, ipês, bananas, Jacas, mexericas, e outros perfumes, Como bem cantou Afonso, Ao bem louvar-te fauna e flora. Na linha do queixo, leio o doce fluxo De rios, serras e mangues, Onde ágeis pirralhos brincam Ante a recatada sensualidade De moças lavadeiras de cócoras Engrossando as coxas no dobrar do corpo, Pitos acesos nos cantos dos lábios. Rios que Em timidez e fluência, Mais corriam, pintando claros, Por artes de tara fluvial. Em teu pescoço, leio a artéria verde Das infindas trilhas por onde Ramalho Martim, Tibiriçá, e outros andaram, Subindo o Planalto, em ingente caça Aos Tupinambás, naturais das selvas. Aqui, apertados de sede e fome, Viajantes massageavam os calos Trançados mais na alma que no corpo, E, ao canto da saparia, dormiam, Barros seus corpos de alma vegetal, Como a posar pra Jean Luciano, O pintor de Afonso passado e futuro. Em teu...

12 HAIKAIS

passo perto atalho a linha parto o traço se espalho, divido, se me espalham, devido? carrego dentro de mim no nascer que me escapou o dia de onde vim a vida é um poço torço pra subir.... é osso depois da brasa, a brisa abre asas no largo do sapo, um barqueiro rema sem dar trela a papo no cemitério israelita, um cachorro cheira a libélula esquisita no cruzeiro, diligentes pioneiros descansam em azulejos, silentes na biblioteca as traças leem, desempregadas sambaquis lembram caldeiradas, prantos, samba, morte, lá e aqui na light, perfeitas pra um chá inglês as borboletas leal leon ardo de judiar sons nos ossos

10 HAIKAIS

o lobo lambe a lua toda pra gozo do lago faço uma permuta : teus sonhos coloridos pelos que molho em cicuta fácil julgar as trevas com luz que cega o olhar noite quente : no frio dalma corpo fervente ao si-mesmo por vezes se chega a esmo embora velha, não morre a mentira, a verdade que o diga por vezes o leva o vento mas não há fora pior que o de dentro aves através de travesso canto vês, avesso e grave de vazios me encho, logo aviso ruínas, tatus jesuítas rezam

oito HAIKAIS

na casa, sem trampo, mosca xaveca o pirilampo alourados dreadlocks... trigos dourados? mal o corpo sai, logo a alma atrás... grudados demais... cai a meio o cigarro por teus seios... beijou o sapo, foi-se a boca de princesa partiu calma, anoiteceu o dia na alma minha lápide está pronta : aqui morreu o que já não se encontra logo chegará o amanhecer, me achará etéreo em lençol de ébano